sábado, 22 de setembro de 2012

MARIA, MATER MISERICORDIAE

Doravante as gerações me chamarão Bem-Aventurada.


Existe uma íntima relação entre Maria Santíssima, a Mãe de Jesus, o mistério da misericórdia divina e a prática da misericórdia. Maria está desde a sua concepção envolta na misericórdia infinita do Pai, pelo Filho e no Espírito (preservada do pecado e do demônio), ao mesmo tempo em que o seu agir – antes e depois da sua Assunção – está assinalado pelo amor efetivo aos seres humanos (especialmente pelos pecadores e sofredores).
Oficialmente a Igreja Católica aprovou a 15/8/1986 o formulário da Missa Votiva “Santa Maria, Rainha e Mãe de Misericórdia”, importante marco para a história de sua veneração – sem nos esquecermos de que a 30/11/1980 o Papa João Paulo II destacara na sua Encíclica Dives in misericordia que Maria é a “pessoa que conhece mais a fundo o mistério da misericórdia divina” (n. 9). Anos depois o Catecismo da Igreja Católica (1997) dirá que ao rezar na Ave-Maria: “rogai por nós, pecadores”, estamos recorrendo à “Mãe da misericórdia” (n. 2677).
A invocação “Salve, Rainha de misericórdia” se encontra pela primeira vez com o Bispo Adhémar, de Le Puy (+ 1098); destaca a qualidade do olhar materno de Maria: “esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei”, e conclui com o sentido desta sua misericórdia: “ó clemente, ó piedosa, ó doce, Virgem Maria”. Já o título “Mãe de Misericórdia” se crê que foi dado pela primeira vez a Maria por Santo Odão (+942), abade de Cluny. “Ego sum Matermisericordiae” (Eu sou a Mãe de Misericórdia), Maria lhe teria dito em sonho.
No mundo oriental podemos encontrar testemunhos ainda mais antigos. O padre oriental da Tiago de Sarug (+521), aplicou a Maria explicitamente o título de “Mãe de misericórdia” (Sermo de transitu), o que é por muitos considerado como sua primeira atribuição em absoluto.

Relação com a Mensagem da Divina Misericórdia

Em Vilna, capital da Lituânia, se venera a imagem da Mãe da Misericórdia de AušrosVartai (Portal da Aurora) desde 1522, localizada numa das entradas do antigo muro. Em 1773 o Papa Clemente XIV concedia indulgências a quem rezasse ali com devoção, e em 1927 o Papa Pio XI permitiu que a pintura fosse solenemente coroada com o título de Maria, Mãe de Misericórdia. Sua festa é celebrada a 16 de novembro.

Em nossos tempos, Santa Faustina Kowalska†, mística polonesa, nos repropõe a centralidade da Divina Misericórdia para a fé e a vida da Igreja, recorrendo a Maria Santíssima como Mãe da Misericórdia, padroeira da Congregação religiosa a que pertencia (cf. Diário 79, 449, 1560), cuja festa celebravam (a Congregação) em 5 de agosto. Por Providência divina, a primeira vez em que a imagem de Jesus Misericordioso foi publicamente venerada foi justamente em Vilna (cf. Diário, 417).
Em qual sentido podemos proclamar Maria como Mãe de misericórdia? Sem cometer o grave equívoco de pensar que a misericórdia é reservada a Maria e a justiça a Jesus (como muitos medievais chegaram a pensar), o título “Mãe da Misericórdia” ou “Mãe de misericórdia” assim se justifica: Maria é a mulher que experimentou de modo único a misericórdia de Deus – que a envolveu de modo particular desde a sua Imaculada Conceição, passando pela Anunciação, como discípula fiel do seu Filho, até o grande momento da Sua Páscoa (paixão, morte, ressurreição, glorificação e Pentecostes). Ela é kecharitoméne, “cheia de graça”, ou seja, totalmente transformada pela benevolência divina (cf. Ef 1,6).

Maria é a mãe que gerou a misericórdia divina encarnada – graça extraodinária que coloca a jovem Maria, a partir da Encarnação do Filho de Deus, numa relação inimaginável de intimidade com o próprio “Pai das misericórdias” (2Cor 1,3). A partir do seu “eis-me aqui” e o seu “faça-se”, a misericórdia divina se faz carne e entra na história!Maria é a profetisa que exalta a misericórdia de Deus – pois no seu cântico o “Magnificat” por duas vezes – unida ao Filho do Altíssimo e ao seu Espírito – ela louva ao Pai misericordioso: “a sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem”; “socorreu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia” (Lc1,50.54).
Maria é a intercessora incansável do povo de Deus – elevada aos Céus em corpo e alma, Maria não deixa de apresentar as necessidades dos fiéis ao seu Filho, a quem rogou pelos esposos de Caná, quando vivia na terra (cf. Jo 2,1ss). Ela “continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna”, ensina o Concílio Vaticano II (Lumen gentium, n. 62), praticando assim a misericórdia, sobretudo para com os que padecem dos males da alma (pecadores), mas também do corpo (todos que sofrem).Maria é a apóstola incansável da misericórdia divina – com a permissão e o envio do seu Filho, Maria visitou inúmeras vezes os seus filhos ainda peregrinos neste mundo, o que podemos contemplar nas aparições que já gozam de beneplácito eclesial (Guadalupe, La Salette, Lourdes, Knock, Fátima etc.), convidando a todos a se aproximarem do “trono da graça” que é o seu Filho. Com o seu coração compassivo de Mãe, não poderia permanecer indiferente às mazelas dos seus filhos neste vale de lágrimas!

A Mãe de Jesus e nossa merece, portanto, ser honrada como Mãe da Misericórdia e Mãe de misericórdia! Ó Maria, Mãe que experimentastes e gerastes a Misericórdia, Mãe que proclamais e exerceis a misericórdia, fazei de nós autênticos apóstolos deste mesmo mistério de amor em nossos tempos. Amém.


sábado, 15 de setembro de 2012

MÃE E SENHORA DAS DORES

15 de setembro
“Teu filho será causa de queda e reerguimento para muitos. Ele será sinal de contradição e o teu coração será transpassado por uma espada! (Lc. 2, 34-35)”.


Eis o tesouro onde eram guardadas todas as coisas, todas as lembranças; o Coração de Maria, um coração tão humano, tão cheio de lembranças de momentos de alegrias e de dores. Um coração tão semelhante ao de Jesus, um coração tão cheio de amor.
Simeão predisse os combates, as dores e os sacrifícios que estariam diretamente ligados ao Messias no mistério da redenção.

Foi somente na apresentação do Menino Jesus e pelas palavras de Simeão que Maria viu claramente que o Mistério da Redenção lhe reservava uma boa parte de sofrimentos.
Maria conhecia, como todo o seu povo, as profecias das Sagradas Escrituras referentes ao seu Filhinho, o Messias, o Esperado.

O grande São Bernardo no deixou escrito que: “O Martírio da Virgem comemora-se tanto na Profecia de Simeão, como na própria Paixão do Senhor”.
Martírio de Maria? Na ladainha a invocamos como Rainha dos Mártires, e lemos no Profeta Isaias que: “Ele te coroará com uma coroa de tribulação... (Is. 22, 18)”, podemos concluir que o maior martírio, ou seja, a maior prova de sofrer inocentemente pela verdade e pela justiça no amor de Deus, foi suportado por Jesus e compartilhado por sua Mãe.

O peregrinar de Maria foi um misto de alegrias e dores, assim, logo após as alegrias da anunciação, do nascimento, do reconhecimento e da adoração dos Magos. Temos a dor da profecia de Simeão; a dor da fuga da fúria de Herodes; a dor da perda do Menino Jesus no templo e, em contrapartida, a alegria do reencontro; a dor do encontro a caminho do Calvário; a dor aos pés da cruz; a dor ao receber o corpo inerte e gélido do seu Filho em seus braços e a de ver fechar o túmulo, aliado à alegria de ver o Filho ressuscitado e a de sua Assunção aos céus.

A Grandeza de Maria consiste não só no fato de ser ela a Mãe do Cordeiro Divino, de lhe ter oferecido a carne e o sangue humano, mas também no fato de ter ela mesma nutrido e amparado este cordeirinho e tê-lo conduzido e acompanhado até o altar da cruz.
Foi aos pés da cruz que a Mãe das dores tornou-se a Rainha dos Mártires, e, no dizer de Santo Ambrósio: “Estava ao pé da cruz a Mãe... Olhava com piedade as chagas de Seu Filho sabendo que por elas se ia salvando o mundo”.

A partir do século XIII houve uma explosão de devoções que enalteceram a humanidade de Jesus, ex.: nascimento, a Paixão, etc., e assim também de Sua Mãe Santíssima, atribui-se à belíssima seqüência – Stabat Mater, - Lamentações de Maria (Planctus=Pranto), ao franciscano Jacoponi de Todi.

A liturgia lembra as dores de Maria na Sexta-Feira Santa e no dia 15 de setembro. Foi o Papa Pio VI que introduziu na liturgia a festa de Nossa Senhora das Dores.
Na Igreja os maiores propagadores da Coroa das Dores de Maria são os Servitas – Ordem dos Servos de Maria.

Concluímos com o Beato José de Anchieta em seu poema à Virgem Maria:“Uns açoites e uns cravos, um carvalho nodoso, uma lança e uma coroa ensangüentada, eis toda a minha herança; de tudo isto hei de me apossar como espólio meu legal”.


Bendita sejais, Senhora das Dores!


sábado, 8 de setembro de 2012

AMIZADE ESPIRITUAL

São Vicente de Paulo e São Francisco de Sales

A igreja é uma comunidade espiritual. A comunidade espiritual é um mistério divino. Sua edificação não depende de programas; de passos-a-passos ou de livros do tipo “como fazer”. Não!!!
O nascimento de uma comunidade espiritual ou de fé é obra exclusiva do Senhor Jesus Cristo. Em Mt 16:18 Jesus diz ao apóstolo Pedro:
“…edificarei a minha igreja…”
Logo, viver em comunidade espiritual é um milagre da graça de Deus. Contudo, uma coisa que devemos ter em mente é que, mesmo sendo um mistério de Deus na sua edificação, a comunidade espiritual é caracterizada por algo muito especial.
Conforme o texto de João 15:15 o mistério da comunidade espiritual se dá em meio ao mistério da amizade de Jesus com seu povo. Ele mesmo disse :
“…eu vos chamo amigos…”
Contudo, como se dá esta amizade de Jesus com seu povo dentro do contexto de comunidade espiritual (de fé – igreja)? Na comunidade a amizade de Jesus se dá através da amizade espiritual com os irmãos.
Assim, podemos dizer que o que caracteriza uma comunidade espiritual é a presença de amigos espirituais ou amigos da alma. E a grande verdade é que TODOS PRECISAM DE AMIGOS ESPIRITUAIS. Eu preciso, você precisa. Nós precisamos!
Viver em comunidade evoca algumas realidades como segurança, aceitação, companheirismo etc. E somente num ambiente de amizades espirituais é que estas coisas são possíveis.
Mas, agora é necessário nos perguntarmos: o que caracteriza uma amizade espiritual ou um amigo da alma? Nós veremos que é algo bem diferente do que temos encontrado nas igrejas hoje.
 Primeiramente…
 UM AMIGO ESPIRITUAL É UM COMPANHEIRO DE JORNADA:
É alguém que caminha com a gente. Alguém que está ao nosso lado, indo junto conosco seja para dentro da fornalha ardente ou para o monte da transfiguração.
E eu acredito, que é isso que  devemos encontrar na igreja: companheiros e companheiras de travessia no deserto, mas também, de escalada no monte.
Não resta dúvidas que o deserto é muito mais fácil de ser atravessado quando em companhia de outros. Deserto é lugar de peregrinação comunitária.
Com certeza, a igreja deveria ser o último lugar em que alguém se sentisse sozinho. Verdadeiramente, amigos e amigas espirituais são companheiros de jornada. Pois, a vida cristã é uma jornada rumo a Deus.
Em segundo lugar…
UM AMIGO ESPIRITUAL É UM BOM OUVINTE:
Um amigo espiritual está pronto a nos ouvir. Ah! E como nós precisamos desesperadamente de quem nos ouça. Às vezes parece que a gente não vai agüentar e vai explodir de tanta pressão. Não é verdade?
O amigo espiritual recebe o nosso pedido: “rapaz, eu já não agüento mais! Eu preciso desabafar com você.” Ao que ele nos responde: “Pode falar, estou te escutando”.
Acredito que a igreja deve ser composta por pessoas que obedeçam a Tg 1:19:
 “…todo homem deve estar pronto a ouvir; ser tardio para falar e tardio para se irar”.
A grande verdadeé que muitas vezes a gente não está precisando de respostas, mas de um ouvido que nos ouça.
E amigos espirituais param tudo para nos ouvir: nosso choro; nosso lamento; nossas crises; nossas dúvidas e até mesmo as nossas besteiras e infantilidades. Por que não!? Amigos espirituais levam o pacote todo.
 Por último…
UM AMIGO ESPIRITUAL É ALGUÉM QUE DIVIDE O FARDO CONOSCO:
Você já teve a sensação de que alguém estava tentando concertar você? Acredito que não há nada mais frustrante do que isso.
E infelizmente isso acontece demais nas igrejas. Por exemplo: um irmão procura um outro irmão para desabafar seja o que for. De repente este outro irmão abre a Bíblia e desfere um mini sermão: “Está escrito isso e isso… e se você fizer isso e isso e isso…com certeza as coisas vão mudar”.
Que tragédia amados quando isso acontece. As pessoas vão á procura de um amigo espiritual e o que encontram é um “especialista em concertar a vida dos outros á luz da Bíblia”.
Não resta dúvidas,  as igrejas não precisam de especialistas. Nós estamos sedentos por amizades espirituais que cumpram o simples mandamento apostólico que nos exorta:
 “Alegrai-vos com os que se alegram; chorai com os que choram”(Rm 12:15).
Às vezes a única coisa que a gente está precisando é de alguém que, depois de nos ouvir, em silêncio nos abrace e chore conosco, dividindo assim o fardo que tanto nos oprime.
Que na igreja não tenhamos especialistas que tentam concertar nossa vida. Não! Que a igreja de Cristo seja uma comunidade formada de amigos espirituais que levam a carga uns dos outros
***
Que esta amizade espiritual comece pelos pastores; que eles possam ser amigos da alma de cada uma de suas ovelhas.
E que elas sejam de seus pastores. E que sejam também umas das outras. E que o Senhor abençoe Sua noiva neste propósito.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O BOM PASTOR QUE CONTEMPLAMOS


Nossa vocação consiste na continua contemplação do Bom Pastor na Cruz, no ato oblativo de dar a sua vida pelas suas ovelhas. Em Maria a Virgem Apascentadora encontramos a boa Mãe que nos apascenta e nos guia na nossa missão.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

DECÁLOGO DA SANTIDADE

São Francisco de Sales


O “Decálogo para alcançar a santidade” foi composto na Bélgica pelos Missionários de São Francisco de Sales, que se aplica não só para os consagrados, mas para todos os homens e mulheres que desejam amar e servir a Deus no próximo.


1.ANTES DE TUDO, BUSCAR AGRADAR A DEUS: “Este é o centro da minha alma e o polo inamovível, em torno ao qual geram todos os meus desejos e todos os meus movimentos”.

2.TUDO POR AMOR, NADA A FORÇA: “Esta é a regra geral de nossa obediência: é necessário fazer tudo por amor, e nada a força. É necessário amar a obediência que temer a desobediência... os deixo o espirito de liberdade, o que exclui a imposição, o escrúpulo e a agitação”.

3.NADA PEDIR, NADA RECUSAR: “Permanecer nos braços da Providencia, sem determos em nenhum outro desejo senão o querer o que Deus quer de nós”.

4. PARTIR DO INTERIOR PARA O EXTERIOR: “Nunca aprovei o método dos que para formar o homem, começam pelo seu exterior: o porte, as roupas, os cabelos. Parece-me melhor começar pelo interior... pois sendo o coração o manancial das ações, estas serão como seja o coração... aquele que leva Jesus em seu coração, manifestará em todas as suas ações exteriores”.

5. ANDAR TRANQUILARMENTE, COM UMA DOCE DILIGÊNCIA: “A pressa, a agitação não servem para nada; o desejo de uma vida espiritual é bom, mas deve ser sem agitação”. “A cura que se faz tranquilamente sempre é mais segura”, “Devemos ser o que somos e sê-lo bem, para honrar o artífice de quem somos obra”.

6. PENSAR SÓ NELE “HOJE DE DEUS”: “Pensemos em fazer bem nossas ações hoje, e quando chegar o dia de amanhã, também ele se chamará hoje, e então pensaremos nele”.

7. COMEÇAR DE NOVO CADA DIA: “Cada dia devemos começar nosso progresso espiritual, e pensando bem nele, não nos estranharemos de encontrar em misérias. Não há nada que já esteja totalmente concluído; é necessário voltar a começar com bom ânimo”.

8. APROVEITAR TODAS AS OCASIÕES: “Suportai com doçura as pequenas injustiças, as pequenas incomodidades, as perdas de pouca importância que ocorrem cada dia. Estas pequenas ocasiões vividas com amor conquistarão o Coração de Deus e o fará todo vosso”.

9. ESTAR ALEGRES: “Ir adiante com alegria e com o coração mais aberto que se possa; e se não podemos ir sempre com alegria, vamos sempre com confiança”.

10. VIVER EM ESPIRITO DE LIBERDADE: “Eu não sinto nenhum escrúpulo por deixar meu regulamento de vida quando o requer o serviço das minhas ovelhas... Deus me concede a graça de amar a santa liberdade de espirito assim como odiar a dissipação e a libertinagem”. 


sábado, 18 de agosto de 2012

ASSUNÇÃO DA IMACULADA VIRGEM MARIA

São Francisco de Sales


Diz-nos o jovem Bispo em seu grande sermão de 15 de agosto de 1602, falando da Assunção em Saint-Jean-de-Grève. 

"Nossa senhora morreu pela morte de seu Filho, pois Ela não tem outra vida que a de seu Filho: “não vivia senão a vida do seu Filho, como poderia, pois, morrer de outra morte que da Sua? Na verdade eram duas pessoas, Nosso Senhor e Nossa Senhora, mas um só coração, em uma só alma, em um só espírito, em uma só vida, posto que se o laço da caridade unia tão fortemente os cristãos da primitiva Igreja que São Lucas assegura que não tinham senão um só coração e uma só alma (At 4, 32), com quantas mais razões podemos dizer e crer que o Filho e a Mãe, Nosso Senhor e Nossa Senhora, não eram senão uma só alma e uma só vida”! (VII, 443). Isso fazia São Paulo dizer: “Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim” (Gal 2, 20). Só o amor de Maria era maior que o do apóstolo: porque se viveu de sua vida, também morreu de sua morte” (VII, 443-444).

“Certamente, Nossa Senhora foi ferida e alcançada pelo dardo de dor na paixão de seu Filho no monte Calvário e não morreu naquela hora, mas suportou por longo tempo sua chaga, da qual, por fim, morreu” (VII, 447). O Filho morreu de amor, a Mãe também. Esta chaga de amor a impediu viver na Igreja e trabalhar pela Igreja? Certamente, “seu coração, sua alma e sua vida estavam no Céu".  E como!

"Ela pode continuar vivendo na terra”? (VII, 450). E no entanto, continuou na terra, para que? Cristo era “a luz maior”, a Virgem “a menor”; a grande para presidir o dia, a menor, a noite. Como depois da Ascensão desapareceu a grande luz, “a noite chegou repentinamente, tirando o lugar do dia, porque tantas aflições e perseguições, como tiveram que sofrer os Apóstolos, o que era senão noite fechada? Mas, no meio desta noite havia também uma luz, a fim de que as trevas fossem mais toleráveis, porque a Virgem Maria permaneceu na terra no meio dos discípulos”: “era necessária esta luz, para consolo dos fiéis que se encontravam na noite da aflição e sua permanência aqui, abaixo, lhe deu ocasião de fazer muitas obras boas e por isso podemos dizer: muitas jovens juntaram riquezas, porém Tu superaste a todas” (Pr 31, 29). 

“Esta Santa Arca da Nova Aliança, pois, ficou no deserto deste mundo, debaixo das tendas e pavilhões, depois da ascensão de seu Filho” (VII, 441-442), para consolar, iluminar e confortar os primeiros cristãos. Sua soberana união mística com seu filho, e por seu Filho de Deus não a impediu atuar e servir a comunidade dos discípulos.



dogma da Assunção refere-se a que a Mãe de Deus, no fim de sua vida terrena foi elevada em corpo e alma à glória celestial. Este dogma foi proclamado ex cathedra pelo Papa Pio XII, no dia 1º de novembro de 1950, por meio da Constituição Munificentissimus Deus:
"Depois de elevar a Deus muitas e reiteradas preces e de invocar a luz do Espírito da Verdade, para glória de Deus onipotente, que outorgou à Virgem Maria sua peculiar benevolência; para honra do seu Filho, Rei imortal dos séculos e vencedor do pecado e da morte; para aumentar a glória da mesma augusta Mãe e para gozo e alegria de toda a Igreja, com a autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados apóstolos Pedro e Paulo e com a nossa, pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que a Imaculada Mãe de Deus e sempre Virgem Maria, terminado o curso da sua vida terrena, foi assunta em corpo e alma à glória do céu".
"A Assunção da Santíssima Virgem constitui uma participação singular na Ressurreição do seu Filho e uma antecipação da Ressurreição dos demais cristãos" (n. 966).



terça-feira, 14 de agosto de 2012

A SIMPLICIDADE

São Francisco de Sales


Já que a virtude da simplicidade é muito necessária, devíamos entendê-la bem. Ela pode ser definida como um ato de caridade pura e simples que tem uma só finalidade, ou seja, amar a Deus. Nossa alma é simples quando, em tudo o que dizermos ou desejarmos, não temos outro fim. Esse dom divino não comporta interesse próprio, pois nessa dádiva só há lugar para Deus.

Nosso Senhor mesmo nos explicou a virtude da simplicidade, quando disse a seus apóstolos: “Sede prudentes como as serpentes e simples, como as pombas” (Mt 10.16). Aprende da pomba a amar a Deus na singeleza do coração. Imita não só o amor simples desses pássaros que fazem tudo por seu único companheiro, mas também a simplicidade com que expressam seu amor. Eles não usam manhas engenhosas, mas só cantam suavemente, bastando descansar tranquilidade na presença do companheiro para serem felizes.

Muitas pessoas procuram, com preocupação ansiosa, diversos exercícios e meios para amar a Deus. De forma alguma conseguem estar em paz. Atormentam-se para descobrir a arte de amar a Deus, não sabendo que há uma só, isto é, a de amá-lo. Pensam que um determinado método é indispensável para adquirir esse amor, mas esse só se encontra na simplicidade.

O dom divino inclui todos os meios necessários para obter o amor de Deus na própria vocação. Esse amor deve ser o único motivo. Pois a simplicidade não admite outra preocupação qualquer, por mais perfeita que seja a não ser a de amar a Deus pura e exclusivamente. Além disso, a simplicidade não é contrária à prudência. As virtudes nunca chocam, mas se relacionam intimamente. Esta virtude contradiz a habilidade que origina engano e duplicidade. Estes, por sua vez, nos levam a tentar convencer o próximo de que nossas palavras correspondem ao que sentimos no coração. Isto é totalmente oposto à simplicidade, que exige que o interior deve estar totalmente de acordo com o exterior.

Quando, no entanto, estamos interiormente agitados quando às nossas emoções, não devíamos mostrar isso para fora. Não é contrário à simplicidade manifestar calma exterior nesses momentos. Podemos estar muito perturbados por uma reprovação ou uma contrariedade, mas esse abalo não nos provém da vontade. Todo o tormento se dá na parte inferior da nossa alma. A parte superior não consente, mas aceita e avalia a contrariedade. O amor de Deus exige de nós – após ter reconhecido nossos sentimentos – que os contenhamos.
Será que decepcionamos aqueles que nos vêem e nos consideram virtuosos, enquanto na realidade somos poucos mortificados? Refletir sobre o que os outros pensam ou dizem sobre nós não combina com a simplicidade. Depois de realizar um ato qualquer que julgava importante fazer, a alma simples não pensa mais sobre o assunto. A alma não se deixa distrair do seu único fim, a saber, perseverar no pensamento em Deus exclusivamente, com o fim de amá-lo sempre mais.

Teu bem-estar depende do deixar-te guiar e governar sem reserva pelo Espirito de Deus. Essa é a finalidade daquela verdadeira simplicidade que Nosso Senhor tanto recomenda. Ele diz a seus apóstolos: “Se não vos tornardes com as crianças, de modo algum entrareis no Reino dos céus” (Mt 18,3). A alma que alcançou a simplicidade perfeita, só tem um único amor, que se destina a Deus. Nesse amor ela tem somente uma meta: descansar na intimidade com o Pai celeste. Ali, como uma criança que ama, ela deixa todo o cuidado de si mesma ao Pai bondoso, preocupada com nada, senão com essa vida confiante. Nem perde a tranquilidade por desejo algum de virtudes que lhe parecem necessárias. Uma alma assim, na verdade, aproveita cada oportunidade para fazer o bem que encontrar no caminho, mas não corre ansiosamente à procura de maios para aperfeiçoar-se.

Esse exercício de entrega contínua às mãos de Deus engloba a perfeição de todos os outros exercícios por sua simplicidade e pureza absolutas. Enquanto Deus no-lo permitir, não o mudemos.


PASTORISTAS
Contemplari ad Pascendum