sábado, 18 de agosto de 2012

ASSUNÇÃO DA IMACULADA VIRGEM MARIA

São Francisco de Sales


Diz-nos o jovem Bispo em seu grande sermão de 15 de agosto de 1602, falando da Assunção em Saint-Jean-de-Grève. 

"Nossa senhora morreu pela morte de seu Filho, pois Ela não tem outra vida que a de seu Filho: “não vivia senão a vida do seu Filho, como poderia, pois, morrer de outra morte que da Sua? Na verdade eram duas pessoas, Nosso Senhor e Nossa Senhora, mas um só coração, em uma só alma, em um só espírito, em uma só vida, posto que se o laço da caridade unia tão fortemente os cristãos da primitiva Igreja que São Lucas assegura que não tinham senão um só coração e uma só alma (At 4, 32), com quantas mais razões podemos dizer e crer que o Filho e a Mãe, Nosso Senhor e Nossa Senhora, não eram senão uma só alma e uma só vida”! (VII, 443). Isso fazia São Paulo dizer: “Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim” (Gal 2, 20). Só o amor de Maria era maior que o do apóstolo: porque se viveu de sua vida, também morreu de sua morte” (VII, 443-444).

“Certamente, Nossa Senhora foi ferida e alcançada pelo dardo de dor na paixão de seu Filho no monte Calvário e não morreu naquela hora, mas suportou por longo tempo sua chaga, da qual, por fim, morreu” (VII, 447). O Filho morreu de amor, a Mãe também. Esta chaga de amor a impediu viver na Igreja e trabalhar pela Igreja? Certamente, “seu coração, sua alma e sua vida estavam no Céu".  E como!

"Ela pode continuar vivendo na terra”? (VII, 450). E no entanto, continuou na terra, para que? Cristo era “a luz maior”, a Virgem “a menor”; a grande para presidir o dia, a menor, a noite. Como depois da Ascensão desapareceu a grande luz, “a noite chegou repentinamente, tirando o lugar do dia, porque tantas aflições e perseguições, como tiveram que sofrer os Apóstolos, o que era senão noite fechada? Mas, no meio desta noite havia também uma luz, a fim de que as trevas fossem mais toleráveis, porque a Virgem Maria permaneceu na terra no meio dos discípulos”: “era necessária esta luz, para consolo dos fiéis que se encontravam na noite da aflição e sua permanência aqui, abaixo, lhe deu ocasião de fazer muitas obras boas e por isso podemos dizer: muitas jovens juntaram riquezas, porém Tu superaste a todas” (Pr 31, 29). 

“Esta Santa Arca da Nova Aliança, pois, ficou no deserto deste mundo, debaixo das tendas e pavilhões, depois da ascensão de seu Filho” (VII, 441-442), para consolar, iluminar e confortar os primeiros cristãos. Sua soberana união mística com seu filho, e por seu Filho de Deus não a impediu atuar e servir a comunidade dos discípulos.



dogma da Assunção refere-se a que a Mãe de Deus, no fim de sua vida terrena foi elevada em corpo e alma à glória celestial. Este dogma foi proclamado ex cathedra pelo Papa Pio XII, no dia 1º de novembro de 1950, por meio da Constituição Munificentissimus Deus:
"Depois de elevar a Deus muitas e reiteradas preces e de invocar a luz do Espírito da Verdade, para glória de Deus onipotente, que outorgou à Virgem Maria sua peculiar benevolência; para honra do seu Filho, Rei imortal dos séculos e vencedor do pecado e da morte; para aumentar a glória da mesma augusta Mãe e para gozo e alegria de toda a Igreja, com a autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados apóstolos Pedro e Paulo e com a nossa, pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que a Imaculada Mãe de Deus e sempre Virgem Maria, terminado o curso da sua vida terrena, foi assunta em corpo e alma à glória do céu".
"A Assunção da Santíssima Virgem constitui uma participação singular na Ressurreição do seu Filho e uma antecipação da Ressurreição dos demais cristãos" (n. 966).



terça-feira, 14 de agosto de 2012

A SIMPLICIDADE

São Francisco de Sales


Já que a virtude da simplicidade é muito necessária, devíamos entendê-la bem. Ela pode ser definida como um ato de caridade pura e simples que tem uma só finalidade, ou seja, amar a Deus. Nossa alma é simples quando, em tudo o que dizermos ou desejarmos, não temos outro fim. Esse dom divino não comporta interesse próprio, pois nessa dádiva só há lugar para Deus.

Nosso Senhor mesmo nos explicou a virtude da simplicidade, quando disse a seus apóstolos: “Sede prudentes como as serpentes e simples, como as pombas” (Mt 10.16). Aprende da pomba a amar a Deus na singeleza do coração. Imita não só o amor simples desses pássaros que fazem tudo por seu único companheiro, mas também a simplicidade com que expressam seu amor. Eles não usam manhas engenhosas, mas só cantam suavemente, bastando descansar tranquilidade na presença do companheiro para serem felizes.

Muitas pessoas procuram, com preocupação ansiosa, diversos exercícios e meios para amar a Deus. De forma alguma conseguem estar em paz. Atormentam-se para descobrir a arte de amar a Deus, não sabendo que há uma só, isto é, a de amá-lo. Pensam que um determinado método é indispensável para adquirir esse amor, mas esse só se encontra na simplicidade.

O dom divino inclui todos os meios necessários para obter o amor de Deus na própria vocação. Esse amor deve ser o único motivo. Pois a simplicidade não admite outra preocupação qualquer, por mais perfeita que seja a não ser a de amar a Deus pura e exclusivamente. Além disso, a simplicidade não é contrária à prudência. As virtudes nunca chocam, mas se relacionam intimamente. Esta virtude contradiz a habilidade que origina engano e duplicidade. Estes, por sua vez, nos levam a tentar convencer o próximo de que nossas palavras correspondem ao que sentimos no coração. Isto é totalmente oposto à simplicidade, que exige que o interior deve estar totalmente de acordo com o exterior.

Quando, no entanto, estamos interiormente agitados quando às nossas emoções, não devíamos mostrar isso para fora. Não é contrário à simplicidade manifestar calma exterior nesses momentos. Podemos estar muito perturbados por uma reprovação ou uma contrariedade, mas esse abalo não nos provém da vontade. Todo o tormento se dá na parte inferior da nossa alma. A parte superior não consente, mas aceita e avalia a contrariedade. O amor de Deus exige de nós – após ter reconhecido nossos sentimentos – que os contenhamos.
Será que decepcionamos aqueles que nos vêem e nos consideram virtuosos, enquanto na realidade somos poucos mortificados? Refletir sobre o que os outros pensam ou dizem sobre nós não combina com a simplicidade. Depois de realizar um ato qualquer que julgava importante fazer, a alma simples não pensa mais sobre o assunto. A alma não se deixa distrair do seu único fim, a saber, perseverar no pensamento em Deus exclusivamente, com o fim de amá-lo sempre mais.

Teu bem-estar depende do deixar-te guiar e governar sem reserva pelo Espirito de Deus. Essa é a finalidade daquela verdadeira simplicidade que Nosso Senhor tanto recomenda. Ele diz a seus apóstolos: “Se não vos tornardes com as crianças, de modo algum entrareis no Reino dos céus” (Mt 18,3). A alma que alcançou a simplicidade perfeita, só tem um único amor, que se destina a Deus. Nesse amor ela tem somente uma meta: descansar na intimidade com o Pai celeste. Ali, como uma criança que ama, ela deixa todo o cuidado de si mesma ao Pai bondoso, preocupada com nada, senão com essa vida confiante. Nem perde a tranquilidade por desejo algum de virtudes que lhe parecem necessárias. Uma alma assim, na verdade, aproveita cada oportunidade para fazer o bem que encontrar no caminho, mas não corre ansiosamente à procura de maios para aperfeiçoar-se.

Esse exercício de entrega contínua às mãos de Deus engloba a perfeição de todos os outros exercícios por sua simplicidade e pureza absolutas. Enquanto Deus no-lo permitir, não o mudemos.


PASTORISTAS
Contemplari ad Pascendum




sexta-feira, 10 de agosto de 2012

ORAÇÃO DA ALMA AO BELO PASTOR


Onde apascentas, ó bom pastor, que carregas nos ombros todo o rebanho? (pois uma é a ovelha, a natureza humana que puseste sobre os ombros). Mostra-me o lugar da quietude, leva-me à erva boa e nutritiva, chama-me pelo nome, e assim, eu que sou ovelha, ouvirei tua voz; e por causa de tua voz, dá-me a vida eterna. Mostra-me a mim o amado de minha alma (Ct 1,6 Vulg.).

 Chamo-te com esta expressão, porque teu nome supera todo outro nome e todo entendimento e nem a natureza racional toda inteira pode dizê-lo ou compreendê-lo. Por isto teu nome, pelo qual se conhece tua bondade, é o bem-querer de minha alma para contigo. Como não te amara a ti que amaste minha alma, embora ainda manchada, a tal ponto que deste a vida pelas ovelhas que apascentas? Impossível imaginar maior amor que o trocar tua vida por minha salvação.

 Ensina-me onde apascentas (cf. Ct 1,7). Encontrando o campo saudável, tomarei o alimento celeste; porque quem dele não se nutre pode entrar na vida eterna. Correrei à fonte, beberei da água divina que tu proporcionas aos sedentos. Igual à fonte, deixas correr água de teu lado, veio aberto pela lança; para quem beber, ela se tornará fonte de água a jorrar para a vida eterna (Jo 4,14).

 Se me apascentares deste modo far-me-ás deitar ao meio-dia, quando, dormindo logo na paz, repousarei na luz sem sombras. O meio-dia não tem sobra, o sol cai a pino; nesta luz, fazes deitar aqueles que alimentaste, ao pores teus filhos contigo no quarto. Ninguém será considerado digno deste repouso meridiano, se não for filho da luz e filho do dia. Quem se separa igualmente das trevas vespertinas e matutinas, quer dizer, de onde começa e de onde termina o mal, está no meio-dia e, para nele deitar-se, ali o colocará o sol da justiça.

 Mostra-me, pois, como repousar e ser apascentada e qual é o caminho para a quietude meridiana. Não aconteça que, escapando-me da guia de tua mão, pela ignorância da verdade, venha a reunir-me com rebanhos estranhos aos teus.
 Falou assim, solícita pela beleza que lhe veio de Deus e desejosa de entender de que modo e para sempre a felicidade existe.


quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Catequese de Bento XVI sobre São Francisco de Sales


Queridos irmãos e irmãs

“Dieu est le Dieu du coeur humain” [Deus é o Deus do coração humano] (Trattato dell’Amore di Dio, I, XV): nessas palavras aparentemente simples, colhemos a marca da espiritualidade de um grande mestre, sobre o qual desejo falar-vos hoje, São Francisco de Sales, Bispo e Doutor da Igreja. Nascido em 1567 em uma região francesa de fronteira, era filho do Senhor de Boisy, antiga e nobre família da Savoia. Viveu entre dois séculos, o XV e o XVI, trazendo consigo o melhor dos ensinamentos e conquistas culturais do século que findava, reconciliando a herança do humanismo com a inclinação em direção ao absoluto, própria das correntes místicas. A sua formação foi muito acurada; em Paris, fez os estudos superiores, dedicando-se também à teologia, e, na Universidade de Pádua, fez os estudos de jurisprudência, como desejava seu pai, e concluiu-os de modo brilhante, com a láurea em utroque iure em direito canônico e direito civil. Na sua harmoniosa juventude, refletindo sobre o pensamento de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, teve uma crise profunda que o levou a se interrogar sobre a própria salvação eterna e sobre a predestinação de Deus a seu respeito, sofrendo como verdadeiro drama espiritual as principais questões teológicas do seu tempo. Rezava intensamente, mas a dúvida o atormentou de modo tão forte que, por algumas semanas, chegou a ficar quase que completamente sem comer e dormir. No ápice da provação, dirigiu-se à igreja dos Dominicanos, em Paris, abriu o seu coração e rezou assim: "Aconteça o que acontecer, Senhor, tu que tens tudo na tua mão, e cujas vias são justiça e verdade; seja o que for que tu tenhas estabelecido para mim...; tu que és sempre justo juiz e Pai misericordioso, eu te amarei, Senhor [...], te amarei aqui, ó meu Deus, e esperarei sempre na tua misericórdia, e sempre repetirei o teu louvor... Ó, Senhor Jesus, tu serás sempre a minha esperança e a minha salvação na terra dos vivos" (I Proc. Canon., vol I, art 4). Aos vinte anos, Francisco encontrou a paz na realidade radical e libertadora do amor de Deus: amá-lo sem nunca pedir nada em troca e confiar no amor divino; não questionar mais o que fará Deus comigo: eu o amo simplesmente, independentemente de o quanto me dá ou não me dá. Assim encontrou a paz, e a questão da predestinação – sobre a qual se discutia naquele tempo – resolveu-se, porque ele não buscava mais aquilo que podia ter de Deus; amava-o simplesmente, abandonava-se à Sua bondade. E isso será o segredo da sua vida, que transparecerá na sua obra principal: o Tratado do amor de Deus.

Vencendo as resistências do pai, Francisco seguiu o chamado do Senhor e, aos 18 de dezembro de 1593, foi ordenado sacerdote. Em 1602, torna-se Bispo de Genebra, em um período em que a cidade era fortaleza do Calvinismo, tanto que a sede episcopal encontrava-se "exilada" em Annecy. Pastor de uma diocese pobre e atormentada, em uma paisagem montanhosa da qual conhecia bem tanto a dureza quanto a beleza, ele escreve: "[Deus] o encontrei cheio de doçura e suavidade entre as nossas mais altas e ásperas montanhas, onde muitas almas simples o amavam e adoravam em toda a verdade e sinceridade; e veados e camurças corriam de lá para cá entre os gelos assustados para anunciar os seus louvores" (Lettera alla Madre di Chantal, outubro de 1606, em Oeuvres, éd. Mackey, t. XIII, p. 223). E, todavia, o influxo da sua vida e do seu ensinamento sobre a Europa da época e dos séculos sucessivos parece imenso. É apóstolo, pregador, escritor, homem de ação e de oração; comprometido em realizar os ideais do Concílio de Trento; envolvido na controvérsia e no diálogo com os protestantes, experimentando sempre mais, para além do necessário confronto teológico, a eficácia da relação pessoal e da caridade; encarregado de missões diplomáticas em nível europeu, e de tarefas sociais de mediação e reconciliação. Mas, sobretudo, São Francisco de Sales é guia das almas: do encontro com uma jovem mulher, a senhora de Charmoisy, buscará inspiração para escrever um dos livros mais lidos na idade moderna, a Introdução à vida devota; da sua profunda comunhão espiritual com uma personaliza excepcional, Santa Giovanna Francesca di Chantal, nascerá uma nova família religiosa, a Ordem da Visitação, caracterizada – como desejou o santo – por uma consagração total a Deus vivida na simplicidade e humildade, no fazer extraordinariamente bem as coisas extraordinárias: "... desejo que as minhas Filhas – ele escreve – não tenham outro ideal senão aquele de glorificar [Nosso Senhor] com a sua humildade" (Lettera a mons. de Marquemond, junho de 1615). Morreu em 1622, aos 55 anos, após uma existência assinalada pela dureza dos tempos e pela fadiga apostólica.

Aquela de São Francisco de Sales foi uma vida relativamente breve, mas vivida com grande intensidade. Da figura deste Santo, emana uma impressão de rara plenitude, demonstrada na serenidade da sua pesquisa intelectual, mas também na riqueza dos seus afetos, na "doçura" dos seus ensinamentos que tiveram um grande influxo sobre a consciência cristã. Da palavra "humanidade" ele encarnou diversas acepções que, tanto hoje como ontem, esse termo pode assumir: cultura e cortesia, liberdade e ternura, nobreza e solidariedade. Na aparência, tinha algo da majestade da paisagem em que viveu, conservando também a simplicidade e a natureza. As antigas palavras e imagens em que se expressava soam inesperadamente, também aos ouvidos do homem de hoje, como uma língua nativa e familiar.

A Filoteia, a destinatária idealizada da sua Introdução à vida devota (1607), Francisco de Sales destina um convite que poderia parecer, à época, revolucionário. É o convite a ser completamente de Deus, vivendo em plenitude a presença no mundo e as obrigações do próprio estado. "A minha intenção é a de instruir aqueles que vivem na cidade, no estado conjugal, na corte […]" (Prefácio à Introdução à vida devota). O Documento com que o Papa Leão XIII, mais de dois séculos depois, o proclamará Doutor da Igreja insistirá sobre esse alargamento do chamado à perfeição, à santidade. Ali é escrito: "[a verdadeira piedade] penetrou até o trono do rei, na tenda dos comandantes dos exércitos, no pretório dos juízes, nos escritórios, nos comércios e até nas cabanas dos pastores […]" (Breve Dives in misericordia, 16 de novembro de 1877). Nascia assim aquele apelo aos leigos, aquele cuidado pela consagração das coisas temporais e pela santificação do cotidiano, sobre as quais insistirão o Concílio Vaticano II e a espiritualidade do nosso tempo. Manifestava-se o ideal de uma humanidade reconciliada, na sintonia entre a ação no mundo e oração, entre condição secular e busca da perfeição, com o auxílio da Graça de Deus que permeia o humano e, sem destruí-lo, purifica-o, elevando-o às alturas divinas. A Teotimo, o cristão adulto, espiritualmente maduro, ao qual endereça alguns anos depois o seu Tratado do amor de Deus (1616), São Francisco de Sales oferece uma lição mais complexa. Essa supõe, ao início, uma precisa visão do ser humano, uma antropologia: a "razão" do homem, precisamente a "alma racional", ali é vista como uma arquitetura harmônica, um templo, articulado em mais espaços, em torno a um centro, que ele chama, juntamente com os grandes místicos, "topo", "ponta" do espírito, ou "fundo" da alma. É o ponto em que a razão, percorridos todos os seus graus, "fecha os olhos" e a consciência torna-se totalmente unidade com o amor (cf. livro I, cap. XII). Que o amor, na sua dimensão teologal, divina, seja a razão de ser de todas as coisas, em uma escala ascendente que não parece conhecer fraturas e abismos, São Francisco de Sales o resume em uma célebre frase: "O homem é a perfeição do universo; o espírito é a perfeição do homem; o amor é a perfeição do espírito, e a caridade a perfeição do amor" (ibid., livro X, cap. I).

Em uma época de intenso florescimento místico, o Tratado do amor de Deus é uma verdadeira e própria summa, e ao mesmo tempo uma fascinante obra literária. A sua descrição do itinerário rumo a Deus parte do reconhecimento da "natural inclinação" (ibid., livro I, cap. XVI), inscrita no coração do homem enquanto pecador, a amar a Deus sobre todas as coisas. Segundo o modelo da Sagrada Escritura, São Francisco de Sales fala da união entre Deus e o homem desenvolvendo toda uma série de imagens de relação interpessoal. O seu Deus é pai e senhor, esposo e amigo, tem características maternas e de zelo, é o sol que mesmo à noite é misteriosa revelação. Um tal Deus atrai a si o homem com vínculos de amor, isto é, de verdadeira liberdade: "porque o amor não tem forçados nem escravos, mas reduz tudo à sua obediência com uma força tão deliciosa que, se nada é tão forte quanto o amor, nada é tão amável quanto a sua força" (ibid., livro I, cap. VI). Encontramos no tratado do nosso Santo uma meditação profunda sobre a vontade humana e a descrição do seu fluir, passar, morrer, para viver (cf. ibid., livro IX, cap. XIII) no completo abandono não somente à vontade de Deus, mas àquilo que a Ele apraz, ao seu “bon plaisir”, ao seu beneplácito (cf. ibid., livro IX, cap. I). No ápice da união com Deus, além dos repentes de êxtase contemplativa, coloca-se aquele refluir de caridade concreta, que atenta para todas as necessidades dos outros e que ele chama de "êxtase da vida e das obras" (ibid., livro VII, cap. VI).

Adverte-se bem, lendo o livro sobre o amor de Deus e ainda mais as outras tantas cartas de direção e de amizade espiritual, aquele conhecedor do coração humano que foi São Francisco de Sales. A Santa Giovanna di Chantal escreve: "[…] Eis a regra da nossa obediência que vos escrevo em letras maiúsculas: FAZER TUDO POR AMOR, NADA POR FORÇA - AMAR MAIS A OBEDIÊNCIA QUE TEMER A DESOBEDIÊNCIA. Deixo-vos o espírito de liberdade, não enquanto aquele que exclui a obediência, porque essa é a liberdade do mundo; mas aquele que exclui a violência, a ânsia e o escrúpulo" (Lettera del 14 ottobre 1604). Não por acaso, na origem de muitas vias da pedagogia e da espiritualidade de nosso tempo, re-encontramos exatamente a marca desse mestre, sem o qual não haveria São João Bosco nem a heroica "pequena via" de Santa Teresa de Lisieux.

Queridos irmãos e irmãs, em uma época como a nossa, que busca a liberdade, também com violência e inquietudes, não deve escapar a atualidade deste grande mestre de espiritualidade e de paz, que entrega a seus discípulos o "espírito de liberdade", aquela verdadeira, no cume de um ensinamento fascinante e completo sobre a realidade do amor. São Francisco de Sales é um testemunho exemplar do humanismo cristão; com o seu estilo familiar, com parábolas que têm às vezes o bater das asas da poesia, recorda que o homem traz inscrita no profundo de si a nostalgia de Deus e que somente n'Ele encontra a verdadeira alegria e a sua realização mais plena.





quarta-feira, 11 de julho de 2012

FÉRIAS COM SÃO FRANCISCO DE SALES

Meditemos e deixemos ressoar em nosso coração as palavras de São Francisco de Sales, escutando-o como um pai que fala a seu filho. Deixemo-nos guiar por seu ensinamento, pois está cheio do amor de Deus e de sua experiência pessoal. São Francisco de Sales, nosso patrono estará do nosso lado nestas férias através de seus santos conselhos.

1.       É preciso suportar amorosamente as adversidades, visto que procedem da mesma mão do Senhor, igualmente amável quando distribui as aflições como quando dá as consolações.
2.       A afabilidade e a doçura comunicam sua graça às conversas sérias. Sabendo conceder oportunamente, tratamos o próximo como devemos tratá-lo: com agrado, com obras e palavras.
3.       A afabilidade, o amor e a humildade tem uma força maravilhosa para ganhar os corações dos homens e levá-los a abraçar as coisas desagradáveis à natureza humana.
4.       A ansiedade que sentimos de ver se progredimos na perfeição não é agradável a Deus e não serve senão para satisfazer nosso amor próprio.
5.       A desconfiança que vós tendes de vós mesmo é boa, porque é o fundamento da confiança em Deus.
6.       A doçura e a bondade são a flor da caridade, que chega a perfeição quando é paciente, doce e boa.
7.       A fé é um dom de Deus que Ele infunde na alma humilde, e que não habita na alma cheia de orgulho.
8.       A humildade que se opõe a caridade não pode ser nem sólida nem verdadeira.
9.       A liberdade de espírito consiste na prontidão para fazer a vontade de Deus, seja esta qual for.
10.   A medida da Providência de Deus é a nossa confiança nele.
11.   A misericórdia é um afeto que nos faz participar da paixão e dor daquele a quem amamos, atraindo ao nosso coração a miséria que ele sofre.
12.   A melhor oração é olhar com frequência para a Cruz e oferecer-lhe nossas penas e sofrimentos unidos ao dela.
13.   A paciência é tanto mais perfeita quanto menos mescla se veja de ansiedades e inquietudes.
14.   A paz é fruto do filial abandono ao nosso Pai dos céus.
15.   A perfeição não consiste na ausência de tentações. Os santos, como nós, foram tentados, e alguns mais fortemente do que nós.
16.   A vida espiritual é suave, aprazível e alegre.
17.   Aconteça o que acontecer, não desanime; segure-se firmemente em Deus, mantenha-se em paz, com confiança no seu amor eterno por você. Sejamos bem firmes na confiança que devemos ter na providência de Deus, a qual vos prepara cruzes, vos dará ombros para carregá-las.
18.   Ademais, não devemos pôr nossas esperanças nos homens, que são mortais, mas só em Deus, que vive eternamente.
19.   Alimentai vossa alma com um espírito de confiança cordial em Deus, e segundo a medida de nossas imperfeições e misérias, cobrai animo e esperai firmemente.
20.   Amai muito a Deus e, por amor de Deus todas as criaturas, principalmente aquelas que os desprezam.
21.   Anime-se e transforme os problemas em matéria para seu progresso e maturidade.
22.   Ao apresentar-se a ocasião de fazer uma boa obra pensai pouco, falai pouco e fazei muito.
23.   As aflições desta vida são as flores que preludiam os frutos da glória.
24.   As grandes oportunidades de servir a Deus são raras, pequenas sempre existem.
25.   As mortificações que nos vem de Deus ou dos homens, por permissão divina, são sempre mais preciosas do que aquelas que são filhas da nossa vontade.
26.   As repreensões, embora sejam em si desagradáveis, contudo quando feitas com amor e bondade, soa bem aceitas e produzem mais proveito.
27.   Bom é mortificar a carne; porém vale muito mais purificar o coração de seus afetos desordenados.
28.   Confia em Deus e sossega com segurança.
29.   Deixar a oração para atender o próximo é um ato de caridade, é deixar Deus por Deus.
30.   Desejar o martírio e ao mesmo tempo descuidar das obrigações do próprio estado é uma pura ilusão.
31.   Deus é o Deus da alegria. A alegria é, portanto, atitude da verdadeira oração.


CONTEMPLARI AD PASCENDUM

quarta-feira, 6 de junho de 2012

O CORACAO DE JESUS

São Joao Eudes
"Três corações que são um só coração".


Em Cristo, nosso Salvador, adoramos três corações, que, pelaestreita união que os liga entre si, fazem um só coração. O primeiro é o Coração divino - Amor incriado - que é o próprio Deus.
É o Amor que desde toda a eternidade O abrasa no seio adoráveldo Pai, do qual, sendo um com o amor do Pai, procede o EspíritoSanto. O segundo é o seu coração espiritual, isto é, a parte superiorda sua alma santíssima, em que o Espírito Santo vive e reinaduma maneira inefável, e que encerra os tesouros infinitos daciência e da sabedoria de Deus; é também a sua vontade humana,faculdade espiritual do amor, que Ele imolou a Vontade do Pai na realização da sua obra redentora. O terceiro, é o coração de carnehipostaticamente unido a Pessoa do Verbo, Coração Santíssimoformado pelo Espírito Santo do sangue virginal de Maria Mae doAmor, que no alto da cruz foi transpassado pelo golpe da lança.

Este amabilíssimo Coração de Jesus é uma fornalha de amor.Ama o Seu divino Pai com um amor eterno, imenso, infinito. AmaSua Mae com um amor sem medida e sem limites, como o provammanifestamente as graças inconcebíveis com que A cumulou.Ama a Igreja triunfante, padecente e militante, como o mostramos sacramentos - em especial a Eucaristia, síntese de todas asmaravilhas da misericórdia de Deus - fontes inesgotáveis de graça e santidade, que brotam do oceano imenso do Coração do nossoSalvador. Ama-nos, enfim, a todos e cada um de nós como Seu PaiO ama a Ele. Por isso, tudo fez e tudo sofreu para libertar-nos doabismo de males em que o pecado nos submergira, e para fazer denós filhos de Deus, membros de Cristo, herdeiros do Pai, co-erdeiros do Filho, possuidores do mesmo Reino que o Pai deu a SeuF ilho Jesus Cristo.

Diante deste Coração Santíssimo o nosso dever é adorá-Lo,louvá-Lo, bendize-Lo, glorificá-Lo, agradecer-Lhe, pedir-Lheperdão de tudo o que sofreu pelos nossos pecados, oferecer-Lhe em reparação todas as alegrias que Lhe dão os que O amam, e todosos nossos sofrimentos aceites por seu amor, enfim amá-Lo ardentemente.Devemos também aproveitar-nos deste Coração porque Eleé nosso. O Eterno Pai, o Espirito Santo, Maria e o próprio Jesus no-lo deram para ser nosso refúgio em todas as necessidades, nossooráculo nas dúvidas e dificuldades, e para ser o nosso tesouro.Deram-no-Io, enfim, não só para ser modelo e regra da nossa vida,mas para ser Ele mesmo o nosso próprio coração, a fim de por tãogrande Coração podermos dar a Deus e ao próximo tudo quantoIhes devemos.


terça-feira, 29 de maio de 2012

A VISITAÇÃO DA VIRGEM MARIA


Sermão de São Francisco de Sales para a festa da Visitação, 1618. 
Dirigido as Monjas Visitandinas.

Naqueles dias, Maria pôs-se a caminho para a região montanhosa, dirigindo-se apressadamente a uma cidade de Judá. Entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel. Ora, quando Isabel ouviu a saudação de Maria a criança lhe estremeceu no ventre e Isabel ficou repleta do Espírito Santo.  Com um grande grito, exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto de teu ventre”! Donde me vem que a mãe do meu Senhor me visite? Pois quando tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria em meu ventre. Feliz aquela que creu, pois o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido. (lc 1.39-45)


Nossa amável e insuficientemente amada Senhora e mestra, a gloriosa Virgem, enquanto deu seu consentimento as palavras do arcanjo São Gabriel, o mistério da Encarnação se realizou nela. E sabendo pelo mesmo São Gabriel que sua prima Isabel havia concebido um filho em sua velhice, quis ir vê-la desejando servi-la e ajuda-la, porque sabia que isto era da vontade de Deus; com prontidão saiu de Nazaré, pequena cidade da Galileia para ir a Judeia a casa de Zacarias. Empreendeu a viagem longa e difícil subindo a montanha da Judeia, um caminho muito pesado para esta terna e delicada Virgem.

O que impulsionou particularmente a nossa gloriosa Mestra a fazer esta visita foi sua ardente caridadee sua profunda humildade; sim, minhas queridas Irmãs, estas duas virtudes a fizeram deixar Nazaré, por que a caridade não é ociosa, senão que arde nos corações em que habita e reina, a Santíssima Virgem estava plena dela, pois que levava o Amor mesmo em suas entranhas. Ela tinha contínuos atos de amor, não somente com Deus com o qual estava unida pela mais perfeita dileção, senão que tinha o amor do próximo em grande perfeição, que a fazia desejar ardentemente a salvação das almas.
Nossa Senhora se alegra com sua prima; elas são impulsionadas a glorificar a Deus que havia derramado tantas graças: sobre ela, que era virgem, fazendo-a conceber o Filho de Deus por obra do Espírito Santo, e sobre Santa Isabel que era estéril, concebendo milagrosamente e por graça especial a aquele que devia ser o precursor do Messias.

Com a caridade, a Santíssima Virgem havia recebido uma profunda humildade, como a manifesta a que responde ao louvor de Isabel: “Porque Deus olhou para a humildade de sua serva, doravante as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lc 1.48).
Ao dizer humilde ela não se referia a virtude da humildade senão a própria condição que via em si mesma, ao que era por natureza e do nada que havia saído. Nosso Senhor deu testemunho da humildade de sua mãe, quando a louvando chama “mulher”, Ele manifesta que é feliz porque o tem levado em seu ventre, porém, pela humildade com que ela diz “sim” a vontade do Pai celestial e a ter cumprido.
O evangelista disse que a Virgem se levantou apressada para mostrar sua prontidão com a que se devem seguir as inspirações divinas; porque é próprio do Espírito Santo, quando toca um coração, inquietá-lo; Ele ama a diligência e a prontidão; é inimigo de prazos e atrasos na execução do que é a vontade de Deus.
Minhas queridas Irmãs, como devem estar cheias de alegria quando são visitadas por este Divino Salvador no Santíssimo Sacramento do altar, e pelas graças interiores que diariamente recebem de sua Divina Majestade, por tantas inspirações e palavras que Ele fala a seus corações; porque Ele está sempre indicando o que quer que façam por seu amor.
Quantas ações de graças devem dar ao senhor por tantos favores! Como devem escutá-lo com grande atenção e realizar fiel e prontamente suas divinas vontades!
A Santíssima Virgem escutando os louvores de sua prima Isabel se humilhava e por tudo glorificava a Deus, confessando que toda a sua felicidade procedia de que Ele havia olhado a humildade de sua serva e entoa o formoso e admirável canto do “Magnificat”, que supera todos cantados por outras mulheres que a Sagrada Escritura menciona.

Oh minhas queridas Irmãs, quem tem esta Virgem por Mãe, Filhas da Visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel, devem ter um grande cuidado em imitá-la, sobretudo na sua humildade e caridade, que são as principais virtudes que a motivaram fazer esta visita; portanto devem ter uma grande diligência e alegria para visitar suas Irmãs enfermas, aliviando-as e servindo-as cordialmente em suas enfermidades, espirituais e corporais; e para tudo o que se refere a praticar a humildade e a caridade deve por especial cuidado e prontidão; porque para ser Filha de Nossa Senhora não basta estar nas casas da Visitação e levar o véu de Religiosa. Seria cometer uma ofensa a esta Mãe, contentando-se com isto.

É necessário imitá-la em sua santidade e virtudes; portanto, minhas queridas Irmãs, sejam cuidadosas em conformar suas vidas com a dela; sejam doces, humildes, caridosas e bondosas; com ela glorifiquem o Senhor nesta vida. Que se o fazem fiel e humildemente neste mundo, indubitavelmente que no céu cantarão com Ela, “Magnificat”; e bendizendo com este cântico a Divina Majestade, serão abençoadas por Ela durante toda a eternidade, conduzindo-nos a Santíssima Trindade.