terça-feira, 3 de abril de 2012

CRISTO NA VIDA ESPIRITUAL

Darlan Santos

INTRODUÇÃO

A presença de Cristo na vida espiritual não é um elemento secundário, mas essencial; Cristo é o centro de gravitação de toda a vida cristã, o princípio o meio e o fim de toda santidade. Usaremos aqui as palavras de São João Eudes para demonstrar esta profunda realidade cristológica: “O primeiro e principal, ou melhor, o único objeto do olhar e da complacência do eterno Pai, é seu Filho Jesus. Digo único; porque assim como o Pai quis que seu Filho Jesus sejatudo em todas as coisas (Ef 1.23), e que todas as coisas subsistem nele e por ele (Col 1.17), conforme a palavra do apóstolo, assim vê e ama todas as coisas nele, e em todas as coisas não vê nem ama senão a Ele. E assim como, segundo a doutrina do apóstolo, fez todas as coisas nele e por ele (Col 1.16), assim quis também que todas as coisas fossem feitas para ele (Hb 2.10). E como escondeu nele todos os tesouros da sabedoria e da ciência (Col 2.3) da sua bondade e beleza, da sua glória e felicidade, e de todas as suas perfeições, assim  também Ele mesmo por várias vezes nos anuncia solenemente que todas as suas complacências e delícias neste Filho único e bem-amado (Mt 3.17).
Também para nós, à imitação do Pai, a quem como nosso Pai devemos seguir e imitar, há de Jesus ser o único objeto do nosso espírito e do nosso coração. Devemos ver e amar tudo nele, e em todas as coisas não devemos ver nem amar senão a Ele. todas as nossas ações devem ser feitas nele e para ele. Havemos de pôr nele toda a nossa alegria, ter nele o nosso paraíso. Por isso nos pede que estabeleçamos nele a nossa morada: Permanecei em mim (Jo 15.4). E o seu discípulo amado repetirá por duas vezes este mandamento: Permaneceu nele, meus filhinhos (Jo 2.28). E São Paulo, para nos confirmar nisto mesmo, assegura-nos que não há condenação para aqueles que permanecem em Jesus Cristo (Rm 8.1).
Mas quando digo que Jesus deve ser o único objeto do nosso amor, não excluo o Pai nem o Espírito Santo. Pois se Jesus nos assegurou que quem O vê, vê o Pai (Jo 14.9), também aquele que fala dele fala do Pai e do Espírito Santo; e aquele que O honra e ama a Ele, honra e ama igualmente seu Pai e seu Espírito Santo; e aquele que o contempla ao mesmo tempo contempla o Pai e o Espírito Santo.


I. CAPÍTULO:
A VIDA DE CRISTO NA MEDITAÇÃO
Na Imitação de Cristo seu autor nos aconselha a centrar-nos na pessoa de Cristo como caminho de meditação constante quando diz: Seja, pois, o nosso principal empenho meditar sobre a vida de Jesus Cristo. A doutrina de Cristo excede todas as doutrinas dos santos e quem tiver o seu espírito há de encontrar o maná nele escondido. Quem quiser, pois, compreender e saborear toda a plenitude das palavras de Cristo deve esforçar-te em conformar com Ele toda a própria vida.
A meditação da vida de Cristo sempre foi um dos elementos constitutivos da busca do conhecimento de Cristo, de seus sentimentos, virtudes e atitudes e mistérios. Os Santos padres em todos os seus escritos fazem várias referências com relação à necessidade desta meditação que segundo São Francisco de Sales na sua Obra clássica Teotimo, a meditaçãoconsiste numa certa atividade da fantasia, pela qual nos representamos o mistério que queremos meditar, como se os acontecimentos se estivessem sucedendo realmente ante os nossos olhos, a esta atividade da fantasia deve seguir-se a do entendimento, que se chama meditação e que consiste em aplicá-lo às considerações capazes de elevar a vontade a Deus e afeiçoá-las as coisas divinas.A meditação da vida de Cristo e de todos os seus mistérios é o primeiro passo do desenvolvimento da vida espiritual, por ela conhecemos os movimentos internos de Cristo e os externos possibilitando assim o amor como fruto desta experiência de fé. Diz São Francisco de Sales na Filoteia: Aconselho-te a oração do espírito e de coração e, sobretudo, a que se ocupa da vida e paixão de Nosso Senhor: contemplando-o sempre de novo, pela meditação assídua, tua alma há de por fim encher-se dele e tu conformarás a tua vida interior e exterior com a sua. Deste modo nós, unindo-nos com Nosso Senhor, pela meditação, e notando as suas palavras e ações, os seus sentimentos e inclinações, aprenderemos por fim, com a sua graça, a falar com ele, a agir com ele, a julgar como ele e a amar como ele. A assídua meditação da vida de Cristo leva o cristão a uma identificação de sua pessoa a tal ponto de afirmar como São Paulo: Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. Minha vida presente na carne vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e seentregou  si mesmo por mim. (Gl 2,19-20). É uma vida vivida não tanto seguindo os passos de Cristo, mas vivendo sua vida enxertada nele e Ele em nós, é uma experiência de fé na própria pessoa de Cristo. O fruto da meditação da vida de Cristo é a vivência da mesma, de forma conformada a própria condição de vida de cada homem que é chamado a esta identificação.
Dentre as escolas de espiritualidade cristã a Francesa que tem seu fundador o cardeal Pierre de Bérulle enfatiza e centraliza a pessoa de Cristo como o modelo único da vida cristã por consequência do batismo e seus mistérios como o meio apropriado para o processo de conformação; destaca as principais virtudes de Cristo: humildade, mansidão, conformidade com a vontade do Pai, sacrifício e oblação de si mesmo.



II. CAPITULO
A HUMANIDADE DE CRISTO NA MEDITAÇÃO
A humanidade de Cristo foi um dos grandes temas cristológicos, acarretando várias consequências e divergências na própria espiritualidade cristã. No século XVI este tema foi modelo de muitas reflexões, sobretudo na França e na Espanha. A escola francesa de espiritualidade com Pierre de Bérulle, Charles de Condren, Jean-Baptiste Noulleau, Jean-Jacques Olier, São João Eudes, São Vicente de Paulo, São Francisco de Sales e na Espanha com a reformadora do Carmelo Santa Teresa de Ávila. A experiência mística de Santa Teresa a levou a descobrir que a Humanidade de Cristo é a chave para entrar na sua divindade, por isso mesmo isso foi motivo de grandes sofrimentos para a santa.
Vejamos muito detalhadamente seu modo de orar com relação a Jesus Deus-Homem, ou seja, atendendo à humanidade de Jesus, de quem foi tão devota, mas sem separar nunca a humanidade da divindade, já que a humanidade é como o apoio para entrar na claridade e formosura da divindade. Quando meditava em Jesus, em qualquer passo de sua vida que contemplasse, fazia-o dentro de si mesma e junto a ela, e nesta companhia íntima, muito a sós, atendia, escutava, refletia, fazia pedidos e propósitos que se lhe ocorriam, sempre com amor e silêncio, agradecida de que a permitisse estar com Ele, algumas vezes com afeto, outras árida e seca, como Deus lhe dava. Santa Teresa mesmo escreve: Procurava o mais que podia prazer a Jesus Cristo, nosso bem e senhor, presente dentro de mim e este era meu modo de oração: Se pensava em algum passo, representava-o no interior... (Vida 4,8).
Esta união em amor com Deus, com a companhia de Jesus como testemunho amoroso, com a sensação da viva presença de Deus enchendo sua alma e comunicando-se com ela, é o altíssimo fruto maduro da meditação com que nos princípios começou a contemplar a Jesus sozinho dentro de sua alma. Por isso insiste tanto Santa Teresa em trazê-lo presente: É grande coisa enquanto vivemos e somos humanos, prazer a Deus Humanado diante de nós. Há menester ter arrimo o pensamento para o ordinário... E no meio dos negócios e perseguições e trabalhos, quando não se pode ter tanta inquietação, e em tempo de aridez, muito bom amigo é Cristo, porque o vemos homem e com fraquezas e trabalhos, serve-nos de companhia. (Vida 22,9-10).
Cristo é vida sobrenatural e enche de vida quantos procurarem levar-lhe dentro de si mesmos ou junto a si. E acaba de dizer-nos Santa Teresa o muito conveniente que é trazer sua imagem e não para leva-la no pescoço pendurada, e sim para falar com o Senhor e pedi-lhe sua ajuda, oferecer-lhe nossos trabalhos, nossos afetos e nossa pessoa. A conversação com o Senhor na oração meditativa e durante o dia, desperta o afeto, aviva a fé e não deixa o Senhor de nos dar amorosa resposta num maior amor. A humanidade de Cristo na meditação é um elemento que a espiritualidade cristã foi ao longo dos tempos sendo de suma importância, pois sendo Cristo o centro da vida espiritual faz-se necessário não somente a meditação da sua divindade, mas também de sua humanidade.
A humanidade de Cristo também como caminho de meditação está presente nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola na terceira semana. Estas meditações tem como finalidade o conhecimento da vida de Cristo para chegar acontemplação do amor. O fruto da meditação é o cultivo das virtudes e o amor divino. A vida cristã consiste nesta constante meditação dos mistérios, das virtudes, dos sentimentos e das atitudes de Cristo para chegarmos à transformação nele. Somos as mãos, os pés, o coração do Deus salvador, porque "Deus não tem mais mãos que as nossas", como falara Santa Teresa d'Ávila.
Ao longo da história da espiritualidade os cristãos foram buscando formas de meditar sobre a realidade da Humanidade de Cristo, mas sobretudo seus sofrimentos como a prática da Via Sacra, este exercício trouxe e traz ainda seus méritos; foi nesta escola que se formaram muitos santos como São Paulo da Cruz, Santa Teresa Benedita da Cruz, São João da Cruz, São Luiz de Montfort e tantos outros. Meditar sobre a realidade da Humanidade de Cristo traz frutuosos resultados de santidade na vida do cristianismo, isso não só entendeu Santa Teresa de Ávila, mas todos os apaixonados da Cruz.


SALES, Francisco.Teotimo. P.189.
A via sacra é uma devoção franciscana do século XV. Ao longo dos tempos, essa prática sofreu algumas modificações, até que em 1742 o papa Bento XIV aprovou a fórmula atual.








terça-feira, 6 de março de 2012

SÃO FRANCISCO DE SALES Ícone do Bom Pastor

Pe. Carlos Martins de Borba, osfs
Fontes: Texto retirado da revista VIVA JESUS dos Oblatos de São Francisco de Sales



No dia 24 de janeiro a Igreja recorda a vida de São Francisco de Sales. Sinto-me pequeno diante da grandeza do testemunho de vida deste Santo. Neste pequeno artigo quero relembrar alguns aspectos de sua vida que levou a Igreja a declará-lo como “Doutor do Amor de Deus”. A oração da liturgia daquele dia assim reza: “Ó Deus, quisestes que São Francisco de Sales se fizesse tudo para todos... acendei em nós o fogo do Espírito Santo que inflamava o seu coração terníssimo... e concedei-nos, imitar a caridade e mansidão para com ele chegarmos à glória...”.

Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco. Preciso conduzi-las também, e ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor (Jo 10. 16)
TUDO PARA TODOS: 


Assim viveu São Francisco de Sales. No mês de julho de 1605, o Bispo Francisco de Sales foi fazer uma visita pastoral no Chablais (região em que ele realizou, como padre, sua primeira experiência de pastor e evangelizador). Conta-se que os ministros calvinistas contrataram um jovem, filho de um médico de Genebra, para seguir os passos do Bispo.

Francisco tinha tanto trabalho que chegou a ficar doente e com muita febre. Estando num quarto a recuperar a saúde, ouve do outro lado da sala a voz deste jovem gracejando sobre a vida ociosa do Bispo. Francisco manda chamá-lo. Depois de cumprimentá-lo pede para lhe tomar o pulso... O jovem ficou impressionado com as palavras do Bispo e também surpreendido porque ninguém daquele lugar sabia que ele tinha conhecimento de medicina. Depois de falar que estava observando seus passos, perguntou: “-O que anda fazendo por estes lugarejos?” E Francisco responde: “Ando a procura das minhas ovelhas”. E abraçando-o com ternura diz; “vós sois uma delas”. E o rapaz, comovido, caiu de joelhos diante do Bispo e pedia instrução sobre sua fé. Passados 10 dias, o Santo acolhia-o, convertido, na Igreja de Cristo. E assim ele continuava fazendo suas visitas pastorais a pé, como era seu costume, por toda a diocese, fazendo-se tudo para todos.
“As minhas ovelhas ouvem a minha voz, eu as conheço e elas me seguem”. (Jo 10.27)

CORAÇÃO TERNÍSSIMO: 


Um outro fato aconteceu. Certo dia, duas jovens se apresentaram ao Mosteiro da Visitação de Annecy. Queriam se consagrar a Deus mas com a condição de continuar usando brincos nas orelhas e anel nos dedos. A Madre Francisca de Chantal e a comunidade não concordaram: Francisco porém, agiu diferente... Com um coração terníssimo percebeu que por trás destas vaidades, existiam boas manifestações vocacionais e disse: “Devemos suportar o próximo, até mesmo nas suas infantilidades”, e adimitiu-as.

Francisco de Sales aproveitava todas as oportunidades para instruí-las: “Se tiver que pender para algum extremo, que seja para o lado da doçura. O coração humano é assim: irrita-se com rigor. Tudo pela doçura e nada à força. A violência desordena tudo, azeda os corações e gera o ódio... As saladas, para serem boas, devem levar mais azeite que vinagre. Mais vale fazer pouco e bem; não é pela multiplicidade das coisas que fazemos que adiantamos na perfeição, é pelo fervor com que as fazemos. A devoção é um fervor suave, tranqüilo, judicioso; porém, a pressa é a sua ruína”.
Depois desta instrução, as jovens aceitaram os conselhos e foram admitidas ao noviciado. E, tão logo, as noviças, tão envergonhadas, pediram perdão à comunidade. Era, então, com esta amabilidade que Francisco usava meios simples e suaves que com firmeza ajudava as pessoas a deixar a vaidade e a moleza, em vista de se darem totalmente a Deus.

“Eu vim para que as ovelhas tenham vida e para que a tenham em abundância.
Eu sou o bom pastor. O bom pastor expõe a sua vida pelas ovelhas”. (Jo 10.10-11)

CARIDADE E MANSIDÃO: 


A caridade e a mansidão marcaram a sua vida e a sua missão. Conta-se que no ano de 1605 Francisco se encontrava no povoado de La Roche. Após suas pregações ele começou a visitar os doentes nas terças e sextas-feiras. Confortava-os, ensinando como aceitar e entender a realidade da dor e da doença. Numa destas visitas caridosas, o Santo encontrou um surdo-mudo. O pobre sujeito tinha boa disposição, boa apresentação e uma certa inclinação respeitosa para com o Santo, de maneira que, apesar de sua limitação, freqüentava sempre suas pregações. Como sempre pedia esmolas, as pessoas não ligavam para sua constante presença.

Francisco, no entanto, tomando o pobre pela mão o levou consigo para cumulá-lo permanente com sua zelosa caridade. Com paciência e mansidão, Francisco conseguiu, com a ajuda de Deus, abrir-lhe a compreensão por meio de sinais e gestos das mãos, dos olhos e do resto, de maneira que lhe ensinou a rezar, confessar com sinais e receber a Santa Comunhão. Francisco de Sales queria ser ele mesmo o confessor do pobre surdo. De lá em diante o teve em sua casa e pediu para que todos cuidassem dele com a mesma caridade.

Portanto, vale a pena recordar algumas atitudes de São Francisco de Sales. Lendo seus escritos, a gente se encanta com tantas manifestações de amor e ternura que expressam o amor e a ternura do nosso Deus. Mas, não basta só recordar, é preciso viver...

sexta-feira, 2 de março de 2012

TODO VOSSO

São Francisco de Sales


Vosso sou, Senhor, e só vosso devo ser; minha alma é vossa, e só a vós deve amar; meu amor é vosso, e só a vós deve tender.
Devo amar-vos como meu primeiro principio, visto que sou de vós; devo amar-vos como meu fim e meu repouso, visto que sou para vós; devo amar-vos mais do que a meu ser, visto que meu ser subsiste por vós; devo amar-vos mais do que a mim mesmo, visto que sou todo vosso e em vós.


terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

MARIA, APASCENTADORA DE NOSSA ALMA


Oração a Virgem Maria, Mãe Apascentadora.

Ó boníssima Virgem Maria, minha Mãe e Apascentadora da minha alma, eu me coloco sob a vossa maternal proteção, como ato de confiança e abandono ao vosso amor.

Consagro-te meu coração, minha vida e minha vocação, pois sendo teu obterei o que anseio, a minha conversão e santificação.Suplico-te que me guieis, protegeis e defendeis dos assaltos do demônio.

Ó Mãe do Bom Pastor, apascenta-me para que eu alcance à páscoa da vida eterna.Amém.

Maria, Mãe Apascentadora.
Rogai por nós.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

CINCO GRAUS DA HUMILDADE SEGUNDO SÃO FRANCISCO DE SALES

“Confesso que não conseguir compreender que haja humildade sem amor de Deus, nem amor sem humildade”. (SFS)



 PRIMEIRO GRAU: Conhecimento de nós mesmos.

O primeiro grau da humildade é o conhecimento de nós mesmos, isto é, quando pelo testemunho da nossa própria consciência e com a luz que Deus derrama no nosso espírito, conhecemos que não somos senão pobreza, miséria e abjeção. Esta humildade, se não passa mais adiante, não é grande coisa e é muito comum, pois poucas pessoas há que vivem em tão grande cegueira que, por pouca reflexão que façam, não conheçam a sua insignificância; mas apesar de não poderem deixar de ver como são, ficariam sumamente pesarosas se alguém as tivesse por tais. Por isso não devemos parar aqui, mas passar ao segundo grau, que é o reconhecimento; pois há diferença entre conhecer uma coisa e reconhece-la.

SEGUNDO GRAU: Reconhecimento.

O segundo grau é o reconhecimento que consiste em dizer e publicar, quando é necessário, o que de nós conhecemos: mas entende-se, dizê-lo com um verdadeiro sentimento do nosso nada, pois se encontram imensas pessoas que não fazem outra coisa senão humilhar-se, mas só por palavras. Falai a uma mulher das mais frívolas, a um cortesão do mesmo teor e dizei-lhe: Meu Deus, como sois dignos de apreço, que merecimento tendes! Não vejo nada que se possa comparar com a vossa distinção. – Eles responderão: Ai Jesus!,perdão, se eu não valho nada, não sou senão miséria e imperfeição; mas ficam muito contentes por se ouvirem louvar, e mais contentes ficarão ainda se estiverdes convencida do que dizeis. Ora aqui está como essas palavras de humildade não passam da ponta da língua e não partem de forma alguma do íntimo do coração; pois se lhes pagásseis na palavra no que diz respeito à humildade, ofender-se-iam, e haviam de querer imediatamente uma reparação de honra. Ora, de semelhantes humildades, Deus no defenda.

TERCEIRO GRAU: Concordar quando somos descobertos.

O terceiro grau é concordar com a nossa insignificância e miséria e confessá-la quando os outros a descobrem, pois muitas vezes dizemos, é verdade, e até com convicção, que somos maus e miseráveis, mas não quiséramos que outrem nos precedesse nesta declaração, e, se o fazem, não só não gostamos, mas até nos ofendemos, o que é uma prova verdadeira de que a nossa humildade não é perfeita, nem da mais delicada. É preciso, pois, confessar francamente e dizer: Tendes razão, conheceis-me muitíssimo bem. Este grau já é muito bom.

QUARTO GRAU:Alegrar-se quando nos humilham.

O quarto grau é gostar do desprezo e alegrar-se quando nos humilham e rebaixam; pois para que é que se há de estar a enganar a outrem? Isso não é razoável. Visto que confessamos que não somos nada, devemos ficar muito satisfeitos que o acreditem, que o digam, e que nos tratem como vis e desprezíveis.

QUINTO GRAU: Amar, desejar, procurar e comprazer-se por amor de Deus.

O quinto, que é o último e o mais perfeito de todos os graus da humildade, é não só amar o desprezo mas desejá-lo, procura-lo e comprazer-se nele por amor de Deus; e felizes daqueles que aqui chegam; o número deles, porém, é muito pequeno.

Jesus, manso e humilde de coração!
Fazei o nosso coração semelhante ao vosso.



FONTE 
Palestras íntimas com as monjas da Ordem da Visitação de Santa Maria




segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

DIA DE SÃO FRANCISCO DE SALES

Patrono dos Pastoristas


CONTEXTO HISTÓRICO

Nosso contexto histórico de hoje vai de 1567 a 1622. antiga região do norte de Itália passada à França um dos baluartes católicos da Contra-Reforma. A região engloba terras da atual Itália e França: região de Sabóia, Genebra e Lion. 

A Casa de Sabóia, ou Casa de Savóia, foi uma dinastia de nobres em uma pequena região entre Piemonte, Itália e a França. Os Sabóia começaram no século XI, como proprietários de um condado. Em 1416 tornaram-se os duques de Sabóia. Em 1720, Vitor Amadeu II, que era o duque de Sabóia, se tornou rei da Sardenha. Seu descendente, Vitor Emanual II, se tornou o primeiro rei da Itália unificada, em 1861. 
Os Duques de Sabóia foram os proprietários do Santo Sudário entre 1453 e 1983. 
Nesse contexto de poder e de disputas com os calvinistas nasceu nosso santo de hoje, São Francisco de Sales.


O SANTO

Francisco foi o primeiro dos treze filhos dos barões de Boisy. Ele nasceu em 21 de agosto de 1567, no castelo de Sales, na Sabóia. Sua família era devota de São Francisco de Assis e, por essa razão, o primeiro filho recebeu o nome de Francisco. 
Sua mãe sempre se preocupou com a educação dos filhos, dando um preceptor para cada um deles. O de Francisco foi o padre Deage, que o acompanhou até sua morte. Esteve com ele em Paris, onde o jovem barão fez os estudos universitários no Colégio dos Jesuítas de Clermont. A Universidade de Paris, na época, contava com 54 faculdades e era um dos grandes centros de estudos. Foi onde ele recebeu formação literária e religiosa aprimorada, tendo se tornado devoto de Nossa Senhora. 

Francisco estudou retórica, filosofia e teologia, base que fez dele o grande teólogo, pregador, polemista e diretor espiritual que caracterizaram seu trabalho apostólico. Por ser o herdeiro direto do nome e da tradição da família, recebeu também lições de esgrima, dança e equitação, para complementar sua já apurada formação. Mas se sentia chamado para servir inteiramente a Deus, por isso fez voto de castidade e se colocou sob a proteção da Virgem Maria. Completados seus estudos em Paris, ele seguiu para Pádua, onde se formou em direito, na Universidade de Pádua, Itália, em 1591. 

Com 24 anos de idade, sua família já lhe havia escolhido uma jovem nobre e rica herdeira para noiva e conseguido um cargo de membro do Senado saboiano. Ele recusou tudo isso. Seu pai soube, então, do seu desejo de ser sacerdote, através do tio, cônego da catedral de Genebra, com quem Francisco havia conversado antes. Dois anos depois o jesuita Francisco recebeu a ordenação sacerdotal, em 18 de dezembro de 1593.

 Atuou inicialmente como missionário em Chablais, em sua região natal, de 1593 a 1597. Em 1599, foi nomeado Bispo auxiliar de Genebra. Três anos depois, em 1602, foi sagrado bispo de Genebra. Seu campo de ação aumentou muito. Assim, Dom Francisco de Sales fundou escolas, ensinou catecismo às crianças e adultos. Em 1612 fundou, com Santa Joana de Chantal, a Ordem da Visitação, que tinha por finalidade cuidar de doentes e do ensino. Pregando uma moral de sereno equilíbrio e de tolerância, adquiriu prestígio nos meios intelectuais de Paris. 

Todos queriam ouvir a palavra do Bispo, que era convidado a pregar em toda parte. Até a família real da Sabóia não resistia ao Bispo de Genebra, que era sempre convidado para pregar também na Corte. 


Publicou o livro que se tornou célebre: "Introdução à vida devota". Francisco de Sales também escreveu para suas Filhas da Visitação, o célebre "Tratado do Amor de Deus", onde desenvolveu o lema: "a medida de amar a Deus é amá-lo sem medida". Os contemporâneos de Francisco não tinham dúvidas sobre sua santidade, dentre eles Santa Joana de Chantal e São Vicente de Paulo, dos quais foi diretor espiritual.

 Francisco morreu em Lyon, França, com 55 anos de idade, no dia 28 de dezembro de 1622. Sua beatificação, em 1661, foi a primeira a ocorrer na basílica de São Pedro em Roma. Foi canonizado quatro anos depois. Pio IX declarou-o Doutor da Igreja e Pio XI proclamou-o o Padroeiro dos jornalistas e dos escritores católicos. Dom Bosco admirava tanto São Francisco de Sales que deu o nome de Congregação Salesiana à Obra que fundou para a educação dos jovens. Ele é celebrado no dia 24 de janeiro porque neste dia, do ano de 1623, as suas relíquias mortais foram trasladadas para a sepultura definitiva em Anneci.




ILUMINAÇÃO BÍBLICA EM NOSSA VIDA

“Se erro, prefiro que seja por excesso de bondade do que por demasiado rigor.” Nessa afirmação está o segredo da simpatia que são Francisco desfrutava entre os seus contemporâneos.

Ele aprendeu com Jesus, quando ele disse em Mateus 11, 28-29: "Vinde a mim vós todos, que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para vossas almas." 

Assim São Vicente de Paulo se referiu a São Francisco de Sales : "Este servo de Deus conformou-se tão bem com o modelo divino, que muitas vezes me pergunto com admiração como uma criatura, dada a fragilidade da natureza humana, pôde alcançar tão elevado grau de perfeição ... Sou levado a ver nele o homem que, dentre todos, mais fielmente reproduziu o amor do Filho de Deus sobre a terra". 

Aprendamos com São Francisco de Sales as virtudes da paciência e da tolerância. Meditemos sobre as palavras de Jesus, que nos convida a viver mansos e humildes como ele.



ORAÇÃO

Prudentíssimo São Francisco de Sales, que de todas as criaturas fazíeis um degrau para subir a Deus, utilizando delas unicamente o resplendor da bondade divina, considerando sempre a causa primeira e jamais as causas segundas; ó Vós que conservastes imperturbáveis a divina presença, a qual em vós despertava um amor continuo ao Sumo Bem; alcançai-nos do Coração de Jesus a mesma luz que vos iluminava, afim de que tendo sempre a Deus presente, como vós O tínheis, O amemos como O amáveis e alcançai-nos também a graça que desejamos. Amém.


LADAINHA



Senhor tende piedade de nós.
Cristo tende piedade de nós.
Senhor tende piedade de nós.

São Francisco, amado por Deus                                                         Rogai por nós!
São Francisco, amante de Deus
São Francisco, imitador de Jesus Cristo
São Francisco, amante da Cruz
São Francisco, companheiro dos Santos
São Francisco, imitador dos Apóstolos
São Francisco, glória dos confessores
São Francisco, luz da Igreja
São Francisco, fundador da Ordem da Visitação
São Francisco, bom Pastor
São Francisco, mestre da fé
São Francisco, patrono da devoção
São Francisco, insigne pregador
São Francisco, grade missionário
São Francisco, gentil confessor
São Francisco, diretor espiritual
São Francisco, patrono dos surdos
São Francisco, sal da Terra
São Francisco, modelo de humildade
São Francisco, modelo de gentileza
São Francisco, forte reformador
São Francisco, companheiro e Guia
São Francisco, amante da beleza
São Francisco, admirável bispo
São Francisco conquistador das paixões,
São Francisco unido à Divina Vontade,
São Francisco, filho fiel da Virgem Maria
São Francisco, modelo perfeito de religioso
São Francisco, apoio misericordioso para os penitentes,
São Francisco, refúgio dos pecadores,
São Francisco, providência do pobre,
São Francisco, consolador dos afligidos,
São Francisco, exemplo de perfeição,
São Francisco, arca da santidade,
São Francisco, imitador da pureza dos Anjos,
São Francisco, querubim da sabedoria,
São Francisco, Serafim do amor,
São Francisco, nosso guia pelos caminhos de Deus,

V. Rogai por nós, São Francisco de Sales,
R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.


Oremos

Amoroso Deus, Tu deste a São Francisco de Sales um espírito de compaixão, permitindo-lhe que se fizesse amigo de todos através do caminho da salvação. Por sua intercessão e exemplo, ajuda-nos a imitar sua humildade sua mansa gentileza e seu apaixonado amor no serviço de nossos irmãos.  Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho na Unidade do Espírito Santo. Amém.








sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

MENSAGEM DE PERFEIÇÃO SACERDOTAL NOS ESCRITOS E FIGURA DE SÃO FRANCISCO DE SALES

Félix Álvarez Herrera
Las grandes escuelas de espiritualidad en relación con el sacerdocio




O QUE NOS ENSINA COMO SANTO

 Nota comum de todos os padres e doutores da Igreja, porém que em São Francisco de Sales tem relevo singular é a harmonia perfeita entre sua vida e sua doutrina. Sua doutrina, em efeito, não parece ser senão o esplendor de sua vida, e esta não parece ter outra razão de ser senão a de dá objetividade ao seu ensinamento. Examinemos este ponto mais em concreto.

Comumente assinalam os autores como traços característicos na fisionomia espiritual de São Francisco de Sales:

Seu santo otimismo, sua ilimitada confiança em Deus, sua humildade, sua simplicidade, sua doçura, seu zelo pastoral, expressões que tem relação com a viva fé e acendrada caridade de onde as procede.

O santo otimismo que mantém São Francisco de Sales em paz imperturbável em meio da atividade difícil de sua vida apostólica, nasce de sua vivíssima fé no amor com que Deus tem amado os homens, amor misericordioso, sempre disposto a perdoar, a reabilitar o pecador arrependido, a acalmar-lo tão generosamente com suas dádivas, que muitas vezes o favorecido se ver obrigado a proclamar feliz a culpa que tem sido ocasião de tão grande misericórdia.

Certamente, todos os atributos divinos são adoráveis, sua sabedoria, sua onipotência, sua soberania, sua majestade, sua justiça, que por todos eles se louve o Senhor; porém entre todas estas grandezas ou aspectos da mesma infinita grandeza, a graça mesma inclina os sujeitos a considerar e reverenciar determinadamente algum ou alguns destes atributos.
A contemplação de São Francisco de Sales se fixa de preferência na divina Bondade, no amor infinito, e este amor o ver compendiado todo, conforme a definição sublime que dá de Deus o apóstolo São João: “Deus é amor...”: Deus caritas est.[1].

Sobre este conceito fundamental descansa toda a teologia deste santo Doutor: esta será a base e tema constante de sua pregação e de seu ensinamento escrito, que bem pudera compendiar-se nesta frase do mesmo São João: “Amemos a Deus, porque Ele nos amou primeiro” [2].

Por isso os erros que vem contra esta verdade fundamental da fé cristã (pessimismo luterano, sombria predestinação calvinista, jansenismo) desconcertam notoriamente este providencial arauto da caridade e do amor que é São Francisco de Sales que parece ferir-lo de morte. Recordemos da crise tremenda, sem dúvida a maior de sua vida, que estas asseverações pessimistas causaram nele, até pôr em grave perigo sua saúde e sua vida; recordemos também da paz e alegria que o inundaram ao receber, prostrado diante de uma histórica imagem da Santíssima Virgem, a grande luz sobre o Deus de amor e seus desígnios de misericórdia, radiante luz que num momento dissipa suas dúvidas pavorosas e que adiante o acompanha sempre em sua vida interior, nas obras que empreende e nos luminosos escritos com que anuncia e difunde por todas as partes, tão consoladora doutrina.

E, claro está, se se trata de um Deus que em excesso de amor se entrega aos homens na Encarnação, na Eucaristia, na Cruz; se os desígnios deste Deus de amor não são desígnios de morte, senão de misericórdia e de vida; se este Deus nos há criado como Pai a uma vida divina, convertendo-nos em seus filhos e herdeiros; se sua inesgotável liberdade oferece a todos os homens copiosos auxílios que fazem não só possível, senão fácil e amável o caminho da salvação; se, finalmente, não nos deixa de alertar-nos com promessas esplêndidas de compartilhar com nós na sua glória sua felicidade e sua vida, com tal que a terra que saibamos comportar nos como bons filhos seus, muito justo é, muito lógico e natural, que o homem corresponda a esta atitude tão nobre e divina convertendo em amor a Deus sua vida inteira.

Neste plano magnífico que se desenrola diante de nossos olhos a Revelação de ambos os Testamentos, se compreende muito bem que uma viva fé e a filial atitude que a ela segue eliminem de raiz todo pessimismo e estabeleçam ao crente fervoroso no otimismo, na confiança e na paz.

As outras características da espiritualidade de São Francisco de Sales, a saber:


A confiança em Deus, revelado aos homens como “Pai das misericórdias e Deus de toda consolação”; a humildade de coração como única atitude que convém a nossa pequenez e a infância espiritual em que nos constitui a graça; a simplicidade que afasta as complicações e vãs aparências, e simplifica o caminho para ir a Deus reduzindo-o a unidade do amor, do verdadeiro amor provado na união das vontades; a alegria no serviço divino, a amabilidade no trato, a sociabilidade cristã, a doçura de caráter e as outras pequenas virtudes que tanto recomenda o Santo doutor em seus escritos, depois de haver-las recomendado com o constante exemplo de sua vida, todas estas pequenas ou grandes virtudes, em seu conceito e prática cristã, são flores e frutos de um talo comum: a divina caridade, talo fecundo que por ela circulam as seivas amargas do próprio vencimento, do esforço generoso e da superação de nós mesmos num ímpeto perseverante de ascensão no caminho de Cristo.

Cada uma destas características, cada uma destas virtudes, na forma em que São Francisco de Sales as praticou e segundo aparecem tão finamente descritas em seus livros, bastaria por si só para identificar a tão amável santo; porém, se se quer um retrato completo dele, precisa recordar a forma concreta como realizou ao longo de sua vida como ideal elevado.
Essa forma concreta foi precisamente a de pastor de almas. 

Segundo Santo Tomás de Aquino[3], o estado de maior perfeição que existe na Igreja é o de pastor de almas, plenamente realizado nos bispos por razão de sua consagração ao apostolado. E, efetivamente, segundo a palavra de Cristo, só será bom pastor o que estive disposto a dar a sua vida pelas ovelhas[4], é dizer, o que possui em seu espírito a caridade heróica e, pela mesma, a perfeição. “A caridade incipiente – disse Santo Agostinho – é uma santidade adiantada; uma grande caridade é uma santidade, e uma caridade perfeita é uma perfeita santidade[5]”.

São Francisco de Sales praticou como sacerdote, como missionário e como bispo aquele amor de Deus e as almas, que tanto o exalta em seus escritos. Sua vida esteve totalmente consagrada ao rebanho de Cristo. Marchou sempre diante de suas ovelhas, precedendo-as não só por razão de sua autoridade e oficio, senão pela excelência de suas virtudes e o atrativo irresistível de seus exemplos. Seus escritos eminentemente pastorais, e suas inumeráveis cartas (mais de 20.000), de prudente governo e de direção espiritual a maior parte delas, deixa ver ao leitor até que ponto era conhecido aquele pastor que conhecia as suas ovelhas e até que ponto era por elas conhecido, amado, venerado e obedecido. A solicitude apostólica com que a cada uma delas atendia se deixa naquele depoimento seu, ao que não falta certo gracejo peculiar no Santo: “Uma só alma seria uma diocese bastante para um bispo”.

A parte visível da tarefa realizada por ele pode calcular-se pela magnitude dos resultados obtidos, entre outros a conversão de 70.000 calvinistas fanáticos na região dos Chablais, recuperada para a Igreja por seu zelo missionário; porém o conjunto do trabalho que levou a cabo durante toda a sua vida e que através de seus escritos há continuado depois de sua morte, é simplesmente incalculável, não somente por sua profundidade em tantas almas que receberam sua direção ou estiveram sob sua influência, senão também por sua extensão, que já, em vida do Santo e mais ainda depois de sua morte, tem alcançado em vários aspectos e dimensões ecumênicas.
Jamais retrocedeu diante dos perigos, ameaças e dificuldades de todo gênero que os impusera, e durante seus anos de missionário nos Clablais chegaram ao extremo, atentaram contra sua vida, senão que a tudo se enfrentou com ânimo valente, com serenidade imperturbável, com caridade heróica, preferindo pôr-se ao alcance do lobo devorador antes que abandonar a ver destroçadas suas ovelhas.

Em uma palavra, São Francisco de Sales foi uma imagem do Bom Pastor, Jesus Cristo, e por isso não é estranho que havia despertado entre os que o conheceram a fundo e o trataram de perto, uma admiração e veneração extraordinárias, princípio do culto que pronto havia de tributar-lhe a Igreja.

Um trabalho necessariamente breve como o presente não pode conter a abundância de testemunhos e documentos com que se podia provar cada um destes acertos, em particular o último, e assim nos contentaremos em transcrever o valioso testemunho de um grande santo que intimamente travou diálogos e que compartilhou em grande medida seu espírito, São Vicente de Paulo, do qual são as seguintes palavras: “Tive a honra de gozar da intimidade de Dom Francisco de Sales. O fervor deste servo de Deus resplandecia em suas íntimas conversações; os que gozavam delas ficavam pendentes de seus lábios. Repassando suas palavras em espírito, sentia tal admiração por elas, que me via inclinado a considerá-lo como o homem que melhor havia reproduzido o Filho de Deus vivendo na terra”[6].


SUAVITER ET FORTITER

Em São Francisco de Sales, doutor e modelo de perfeição cristã, brilha singularmente a FORTALEZA em todos os aspectos mencionados. Digo singularmente, porque a fortaleza tem nele o modo e os suaves matizes do acabado e perfeito: a SERENIDADE, que é a tranqüilidade estável na ordem interior; a DOÇURA, que é a demonstração externa do domínio pelo de si mesmo; a SIMPLICIDADE, que em seu sentido mais alto, é a simplificação no amor; a BONDADE, que é a flor da preciosa caridade e luminosa transparência do reinado da mesma no coração do Santo.

TRADUÇÃO: Seminarista Darlan dos Santos



[1] 1 Jo 4,16
[2] 1 Jo 4,19
[3] ST II-II, q. 184, a. 6
[4] Jo 10,11
[5] Santo Agostinho, De natura et gratia, cap. 70, n.84
[6] P. Coste, S. Vicent de Paul, t, I, p. 158